As profundas mudanças no mundo do
trabalho — da financeirização à desindustrialização, passando pela precarização
e uberização — estarão no centro das discussões do 16º Congresso do Partido
Comunista do Brasil (PCdoB), que acontece entre 16 e 19 de outubro, em
Brasília. Em meio às transformações dos meios e modo de produção que fragmentam
a classe trabalhadora, o partido reafirma em seu Projeto de Resolução Política
a centralidade do trabalho e da luta de classes como eixos
fundamentais da transformação social.
Classe trabalhadora
fragmentada e precarizada
A conjuntura brasileira ilustra os
desafios. Apesar da taxa de desemprego ter recuado para 5,8% no segundo
trimestre de 2025, a menor da série histórica do IBGE, quase metade da força de
trabalho (49%) permanece no setor informal. A desindustrialização segue em
curso: em 2024, a indústria de transformação representava apenas 10,8% do PIB,
segundo o Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (IEDI).
Globalmente, a concentração de renda
também se acelera, revelando que os ganhos obtidos com nova revolução
industrial e com a acelerada financeirização estão sendo capturados pelo
capital em detrimento das forças produtivas. Desde 2015, a riqueza dos 1% mais
ricos cresceu em US$ 33,9 trilhões, enquanto 3 mil bilionários já concentram
14,6% do PIB mundial, de acordo com relatório da Oxfam (2025). No Brasil, 63%
da riqueza está nas mãos de 1% da população, cuja renda é 36 vezes maior que a
dos 40% mais pobres.
Não existe mais o
contexto que deu origem ao vigor sindical do final dos anos 70
A transformação do trabalho se traduz
na fragmentação da classe trabalhadora, fenômeno descrito por dirigentes
sindicais do PCdoB. “O fordismo acabou e a nova revolução industrial deu lugar
a pequenas unidades produtivas, a serviços por aplicativos e home office, que
estimulam o individualismo. Muitos trabalhadores preferem os apps à CLT pela
renda imediata, mas perdem direitos previdenciários e sindicais”, analisa Nivaldo
Santana, secretário sindical nacional do PCdoB.
Para João Batista Lemos,
secretário sindical no Rio de Janeiro, o perfil atual da força de trabalho é
marcado por juventude, presença feminina, pejotização e terceirização: “A
uberização é uma falsa saída, que aprisiona milhões em jornadas extenuantes e
sem proteção”.
O perfil atual dos trabalhadores é um
desafio maior para a organização sindical. Mas Adilson Araújo,
presidente da Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil (CTB), lembra
que o nível de sindicalização vinha num crescente até ser interrompido
pelos retrocessos iniciados após o golpe de 2016 contra a presidenta
Dilma Rousseff: “O programa ‘Ponte para o Futuro’, do Michel Temer, abriu
caminho para a reforma trabalhista e para a precarização generalizada,
agravadas pela pandemia e pela agenda ultraliberal”.
Para Araújo, por conta da situação
atual, o trabalhador é levado a se enxergar como empreendedor, e não como
explorado. E alerta para a mais-valia digital, visível em
plataformas como Uber: “Metade do valor produzido fica com a empresa, denunciam
alguns trabalhadores”, disse.
Novas formas de
exploração capitalista
O diagnóstico partidário aponta que
as novas formas de exploração capitalista desafiam a organização sindical. A
queda da taxa de sindicalização — em 2024, apenas 14,2% no Rio de Janeiro,
segundo o Caged — exige novas estratégias de mobilização.
“Precisamos nos organizar nos
bairros, nos aplicativos de mensagem, além dos locais de trabalho”, defende
Santana. Lemos acrescenta que os sindicatos devem recuperar sua função de
“mobilização política” em meio à desconstrução da consciência de classe, para
além da questão econômica. “O caminho é ampliar a filiação partidária:
organizar pelo local de trabalho, mas também pelo local de moradia. Se os
espaços de trabalho mudaram, então temos que nos adaptar a novas formas de
organização. Buscar pontos de interesses comuns que mobilizem os trabalhadores
fora do trabalho, no bairro — como a luta pela educação e moradia. No Rio de
Janeiro, por exemplo, os trabalhadores convivem com tráfico, igreja e milícias.
Portanto, é preciso ligar a luta dos trabalhadores com outras lutas locais e
com um novo projeto de desenvolvimento nacional, que permita uma perspectiva
classista para além do capitalismo”, afirma Batista.
Desenvolvimento e
soberania como saída
Para o PCdoB, superar a fragmentação
e a precarização passa pela retomada de um projeto nacional de
desenvolvimento, com uma nova industrialização, inovação tecnológica e
soberania energética. Santana destaca que a indústria, ao incorporar avanços
tecnológicos, pode unificar trabalhadores em torno de novos empregos e
direitos. Lemos defende a combinação entre redução da jornada de trabalho e
políticas industriais. Araújo cita a China como exemplo: “A inteligência
artificial está sendo usada para gerar postos de trabalho; o Brasil precisa
apostar em energia limpa e em cadeias produtivas ligadas à Amazônia”.
No campo político, a defesa de
bandeiras como o fim da jornada 6×1, a taxação dos super-ricos e a realização
de um plebiscito popular, são fundamentais para conectar lutas sociais
imediatas das bases partidárias com a luta nacional.
Um mundo em
transição
O debate se insere num cenário
internacional de transição geopolítica, em que o declínio da hegemonia dos
Estados Unidos e do G7 contrasta com a ascensão da China e do bloco BRICS. Em
2024, o BRICS respondeu por 35% da economia mundial, contra 30% do G7. Essa
mudança de eixo, porém, é acompanhada por forte resistência imperialista, com
ameaças e sanções de governos como o de Donald Trump.
Segundo Adilson Araújo, o avanço da
extrema direita e do neonazismo em diversas partes do mundo é a expressão da
crise do capitalismo: “Quando não têm mais argumentos para justificar sua
opressão, recorrem à barbárie”. No Brasil, observa-se que a agenda da extrema
direita, liderada por Jair Bolsonaro, segue alinhada ao imperialismo norte-americano
e representa ameaça à soberania nacional.
Nesse quadro, o sindicalismo
classista é chamado a intervir ativamente na construção de uma nova ordem
mundial mais justa e solidária. “A luta contra o imperialismo e pela
autodeterminação dos povos é inseparável da luta pelo socialismo, que continua
sendo a única alternativa civilizatória diante da barbárie capitalista”, afirma
Araújo.
Centralidade da
luta de classes
Com desemprego em queda, mas
desigualdade persistente, os dirigentes comunistas reforçam que a batalha pela
consciência de classe e pela organização nas bases é estratégica. Para o PCdoB,
o futuro do Brasil depende da capacidade de unir os trabalhadores em torno de
um projeto de desenvolvimento soberano, produtivo e justo.
“O momento exige ousadia
revolucionária”, aponta o Projeto de Resolução Política do 16º Congresso. A
centralidade do trabalho e da luta de classes, em meio às novas formas de
exploração, deve orientar as próximas etapas da luta social e política.
_
Publicado originalmente em pcdob.org
Foto: Entregadores de aplicativos de delivery em greve, em 01/04/2025, em Osasco Paulo Pinto/Agência Brasil

Nenhum comentário:
Postar um comentário