Familiares de 102 mortos e
desaparecidos políticos receberam, nesta quarta-feira (8), as respectivas
certidões retificadas de óbito, em que passa a constar a responsabilidade do
Estado brasileiro pela violência do regime militar que levou à perda dessas vidas.
Destes, ao menos dez eram do PCdoB, a maioria, morta nos ataques dos agentes da
ditadura contra guerrilheiros do Araguaia.
Com a alteração das certidões de óbito, na causa mortis passa a ficar explícita a culpa do Estado brasileiro por aqueles assassinatos, por meio da descrição: “morte não natural, violenta, causada pelo Estado a desaparecido no contexto da perseguição sistemática à população identificada como dissidente política no regime ditatorial instaurado em 1964.”
Após as falas das autoridades, numa bela e emocionante cena, os familiares
presentes levantaram as fotos de seus parentes assassinados. Em seguida, eles
foram chamados a receber as novas certidões. Nas falas de alguns deles, o
relato das dores e traumas causados pela ditadura e, ao mesmo tempo, o orgulho
pela luta justa travada pelos que se foram.
Memória e democracia
A entrega dos documentos foi feita pela ministra dos Direitos Humanos e
Cidadania, Macaé Evaristo, e pela presidenta da CEMDP, Eugênia Gonzaga. O PCdoB
foi representado no ato pelo ex-deputado e militante dos direitos humanos,
Jamil Murad.
“Hoje é um dia central para a reconstrução da memória de todos e todas aquelas que lutaram pelo que hoje temos como democracia, que tantas vezes foi ameaçada no nosso país, mas sobrevive”, disse Macaé Evaristo.
A ministra destacou que o gesto de retificação “é a garantia de um direito que
veio tardiamente, mas que só veio com a luta dos sobreviventes e familiares de
vítimas da ditadura no país”.
A presidenta da CEMDP, Eugênia Gonzaga, fez um breve histórico sobre a luta dos
familiares e movimentos políticos e sociais para que o Estado reconhecesse as
mortes causadas por seus agentes naqueles anos. E declarou: “As certidões de
óbito que entregamos hoje representam uma tentativa de se fazer o caminho
contrário ao do desaparecimento”.
Ela continuou lembrando a célebre frase de Ulisses Guimarães, que disse ter
“horror e nojo à ditadura”: “Pois sentimos o mesmo desgosto por termos, ainda,
que implorar a órgãos como o Ministério da Defesa para que nos franqueie o
acesso aos arquivos e que as condições das mortes e desaparecimentos dessas
pessoas sejam integralmente reveladas. Ainda buscamos por isso. Não
desistimos”.
Mortos e desaparecidos do PCdoB
Na lista das certidões entregues constavam ao menos dez militantes e dirigentes
do PCdoB, oito dos quais foram mortos no Araguaia e dois em São Paulo:
- André Grabois: nascido no Rio de
Janeiro (RJ), em 1946, era filho do histórico comunista Maurício Grabois,
deputado constituinte de 1946. Antes de aderir à Guerrilha, foi enviado
pelo PCdoB à China, onde realizou cursos militares e políticos. Foi morto
nas incursões militares no Araguaia em 1973.
- Antônio Guilherme Ribeiro Ribas: nascido também em
1946, na cidade de São Paulo, foi presidente da União Paulista dos
Estudantes Secundaristas (Upes). Foi morto nas incursões militares no
Araguaia em 1973.
- Helenira Resende de Souza Nazareth: nascida em
Cerqueira César (SP), no ano de 1946, foi importante líder estudantil.
Cursou Letras na Faculdade de Filosofia, Ciência e Letras da Universidade
de São Paulo (FFCL-USP), da rua Maria Antônia, e foi presidente de seu
centro acadêmico. Foi morta nas incursões militares no Araguaia em 1972.
- Lúcio Petit da Silva, Jaime Petit da Silva e
Maria Lúcia Petit da Silva: os três irmãos eram do interior paulista
e nasceram, respectivamente, em 1943, 1945 e 1950. Lúcio e Jaime cursaram
engenharia e eram militantes estudantis. Maria Lúcia fez parte do
movimento secundarista e tornou-se professora. Os três foram mortos no
Araguaia: Maria Lúcia em 1972; Jaime em 1973 e Lúcio em 1974. Ela foi um
dos únicos guerrilheiros cujos restos mortais foram identificados e
entregues à família.
- Luisa Augusta Garlippe: de Araraquara (SP),
nasceu em 1941, foi enfermeira-chefe do Departamento de Doenças Tropicais
do Hospital das Clínicas. Foi morta nas incursões militares no Araguaia em
1974.
- Suely Yumiko Kanayama: nasceu em Coronel
Macedo, interior de São Paulo, em 1948. Cursou Língua Portuguesa e Germânica
na USP, onde iniciou sua militância. Foi morta nas incursões militares no
Araguaia em 1974.
- Ângelo Arroyo: dirigente histórico do
PCdoB, nasceu em São Paulo em 1928 e tinha origem operária. Foi morto na
Chacina da Lapa em 16 de dezembro 1976, juntamente com Pedro Pomar e João
Batista Drummond.
- Carlos Nicolau Danielli: nasceu em 1929, em
Niterói (RJ), também iniciou sua militância na área sindical. Foi morto
sob tortura em 1972, no DOI-Codi de São Paulo.
Veja abaixo a lista
completa de mortos e desaparecidos que tiveram as certidões entregues nesta
quarta:
1.Alex de Paula Xavier Pereira
2.Alexander José Ibsen Voerões
3.Alexandre Vannucchi Leme
4.Ana Maria Nacinovic
5.Ana Rosa Kucinski Silva
6.André Grabois
7.Ângelo Arroyo
8.Antônio Benetazzo
9.Antônio dos Três Reis de Oliveira
10.Antônio Guilherme Ribeiro Ribas
11.Antônio Raymundo de Lucena
12.Antônio Sérgio de Mattos
13.Arno Preis
14.Aurora Maria Nascimento Furtado
15.Carlos Marighella
16.Carlos Nicolau Danielli
17.Catarina Helena Abi-Eçab
18.Dênis Casemiro
19.Devanir José de Carvalho
20.Dorival Ferreira
21.Edgar de Aquino Duarte
22.Eduardo Collen Leite
23.Emmanuel Bezerra dos Santos
24.Feliciano Eugenio Neto
25.Fernando Borges de Paula Ferreira
26.Flavio Carvalho Molina
27.Francisco Emanuel Penteado
28.Francisco José de Oliveira
29.Francisco Seiko Okama
30.Frederico Eduardo Mayr
31.Gastone Lúcia de Carvalho Beltrão
32.Gelson Reicher
33.Grenaldo de Jesus Silva
34.Helenira Resende de Souza Nazareth
35.Heleny Ferreira Telles Guariba
36.Hiram de Lima Pereira
37.Hirohaki Torigoe
38.Iêda Santos Delgado
39.Issami Nakamura Okano
40.Iuri Xavier Pereira
41.Izis Dias de Oliveira
42.Jaime Petit da Silva
43.João Antônio Santos Abi-Eçab
44.João Carlos Cavalcanti Reis
45.João Domingos da Silva
46.Joaquim Alencar de Seixas
47.Joaquim Câmara Ferreira
48.José Ferreira de Almeida
49.José Guimarães
50.José Idésio Brianezi
51.José Lavecchia
52.José Maria Ferreira de Araújo
53.José Maximino de Andrade Netto
54.José Milton Barbosa
55.José Montenegro de Lima
56.José Roberto Arantes de Almeida
57.José Roman
58.José Wilson Lessa Sabbag
59.Lauriberto José Reyes
60.Lúcio Petit da Silva
61.Luisa Augusta Garlippe
62.Luiz Almeida Araújo
63.Luiz Eduardo da Rocha Merlino
64.Luiz Eurico Tejera Lisbôa
65.Luiz Fogaça Balboni
66.Luiz Hirata
67.Luiz José da Cunha
68.Manoel Fiel Filho
69.Manoel José Mendes Nunes Abreu
70.Manoel José Nurchis
71.Manoel Lisbôa de Moura
72.Márcio Beck Machado
73.Marco Antônio Dias Baptista
74.Marcos Antônio Bráz de Carvalho
75.Marcos Nonato da Fonseca
76.Maria Augusta Thomaz
77.Maria Lúcia Petit da Silva
78.Miguel Sabat Nuet
79.Neide Alves dos Santos
80.Nestor Vera
81.Norberto Nehring
82.Olavo Hanssen
83.Onofre Pinto
84.Paulo Guerra Tavares
85.Paulo Stuart Wright
86.Raimundo Eduardo da Silva
87.Roberto Cietto
88.Roberto Macarini
89.Ronaldo Mouth Queiroz
90.Rubens Beyrodt Paiva
91.Rui Osvaldo Aguiar Pfützenreuter
92.Ruy Carlos Vieira Berbert
93.Santo Dias da Silva
94.Solange Lourenço Gomes
95.Sônia Maria de Moraes Angel Jones
96.Suely Yumiko Kanayama
97.Virgílio Gomes da Silva
98.Vitor Carlos Ramos
99.Vladimir Herzog
100.Walter de Souza Ribeiro
101.Yoshitane Fujimori
102.Zoé Lucas de Brito Filho
Foto: Duda Gonçalves/MDHC/Publicado originalmente em pcdob.org.br

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